São duas horas da manhã, estou acordado tanto pelos gritos de Lou, que pede o seio de sua mãe, quanto
pelas ondas que vêm bater em nossa casa envolta em espuma e barulho. Sim, lembro agora, estamos confinados
em uma casa de praia em Ipioca, no Nordeste do Brasil. A água salgada escorre pelas paredes do nosso
bastião. Os mortos pela covid caem ao nosso redor. Minha família está longe. As praias estão desertas. A
solidão ocupa todo o espaço, uma solidão marinha.
Sob um sol que brilha logo após a aurora, renasço novamente. Nuvens gigantescas se formam no céu e
desaparecem alguns instantes depois. Nos trópicos, há uma qualidade especial da luz que penetra na alma:
uma violência inaudita, mas não completamente revelada. O negro absoluto reina como mestre fugaz. O branco
originário também. Ali, abri minha paleta para essa escuridão profunda, para essa virgindade
total.
Nesta manhã, encontro novamente a imobilidade luminosa, sólida e apaziguadora da superfície do oceano e de
suas finas ondulações empurradas pelos ventos alísios astutos. Encontro também a calma inspiradora da
linha do horizonte, a ambiguidade do mar e do céu que se confundem. Às vezes nos perguntamos se o mar
existe, se não é apenas o horizonte. O horizonte marinho, essa fina comissura eternamente semelhante e
diferente, carrega em si a essência de uma onda estacionária. Ele limita e, ao mesmo tempo, abre para o
invisível. Confere ao mundo um sentido que é produto de uma experiência sensorial passível de elaboração
estética singular. “A beleza não é outra coisa senão o infinito contido em um contorno”, segundo Victor
Hugo.
Mais tarde, escondido atrás da minha máscara cirúrgica e equipado com minha prótese fotográfica preferida,
deixo o casulo protetor da nossa casa para minha viagem diária. Sozinho! Parto em busca de imagens do meu
horizonte de confinado, uma fina língua de areia de alguns quilômetros, limitada por dois estuários e um
coqueiral. A distância não faz a Viagem. A Viagem não é o destino.
Como toda manhã, redescubro esse maravilhoso e majestoso entrelaçamento de terra, água e céu.
Trecho do texto introdutório do livro "Solitudes marines".