Entro nas matérias
Iniciar a viagem, abrir as trilhas do jogo
Acompanhar a linha cortante das paredes que se estendem até o horizonte
Aproximar-se, tocar levemente a matéria em um movimento suave e respeitoso
Experimentar a singularidade da materialidade
Fazer desaparecer a imagem em favor dessa materialidade
Atravesso ficções habitadas
Acompanhar um travelling cinematográfico em cenários estranhos
Tornar visíveis realidades latentes, mas de outra forma invisíveis
Dar um rosto à ausência do homem
Abrir presenças na ausência para construir uma nova realidade
Mergulho em sombras saturadas
Escoltar a luz conduzida pela intenção de dissipar as sombras
Sentir a sombra e sua busca perpétua por revelar uma presença
Questionar oposições de cores intensas que bordam as paredes
Acaricio esboços de luz
Dissolver o sujeito no espaço e na luz
Orlar o visível com potenciais distantes, com pontos de fuga
Abrir-se para o céu para sugerir o voo
Reduzir a paisagem a estruturas geométricas abstratas
Acompanho o surgimento de abstrações brancas
Afirmar o estatuto de cor verdadeira do branco
Tornar visíveis os vínculos indissociáveis entre o branco e o preto
Confinar ao ascetismo para abstrair melhor, para enxergar mais profundamente
Revelo solidões angustiantes
Surpreender no que se vê todos os dias aquilo que não se vê mais
Detectar no motivo isolado o que ele possui de puro e doloroso
Encontrar um equilíbrio entre o poder criativo da cor e a simplicidade do traço
Desmascarar a presença do homem por trás do vazio aparente
Acompanhar a viagem através de um questionamento sobre a condição humana
Penetro em embrasuras escuras
Abrir brechas para inundar de luz os espaços internos
Dar sentido a esses limiares espessos que separam o público do privado, a este aqui que
só existe pela presença do além
Imaginar as vidas que eles viram passar
Mergulhar nessas escapadas belas
Escapo em cores espetaculares
Deixar-se levar por suas impressões cromáticas
Escapar da noite pela cor
Captar nosso olhar, perder-se como num espelho dentro de nós mesmos
Apreender a beleza do ordinário nesses muros que se assemelham a quadros
abstratos
Transponho muros cegos
Isolar até a monumentalidade essas vistas frontais que bloqueiam o horizonte da
paisagem
Captar jogos de luz em fachadas de edifícios sem glória
Fazer o muro, ao mesmo tempo pedaço de um lugar de confinamento e matéria para sonho
Transformar cenas solitárias e silenciosas em fontes de proteção e rejuvenescimento,
santuários privados
Marcar a amplitude de todos os caminhos possíveis
Escapo em um epílogo vibrante
Ser levado por uma vibrante impressão de atmosfera e espaço
Pintar a luz, iluminar o silêncio das fachadas
Continuar a viagem em busca da luz e das sombras ao longo do tempo
Perpetuar as fontes infinitas de encantamento derivadas dessas errâncias
fotográficas
Estrutura temática do livro "Ouvertures".