Gosto de me fundir às paisagens nevadas. A neve possui essa capacidade extraordinária de metamorfosear o que me é familiar em algo mágico e estranho. Ela transforma radicalmente o espaço que recobre. Opera uma verdadeira transmutação do mundo: apaga os contornos, suaviza as asperezas, oculta os detalhes. Sob seu manto uniforme, o comum torna-se singular, o cotidiano reveste-se de mistério.
O motivo da árvore solitária, acentuado pelo contraste com a neve imaculada, possui algo de etéreo e doloroso; ele celebra a presença da ausência. Sempre me senti atraído por lugares solitários e silenciosos, buscando alcançar um ponto em que esses espaços se tornam uma fonte de proteção e renovação — santuários particulares.
No silêncio abafado de uma paisagem nevada, a árvore impõe uma presença que muda tudo, sem,
no entanto, parecer querer se destacar. Ela oferece ao olhar um ponto focal, uma referência na
uniformidade
ofuscante, um elemento de composição que transforma uma extensão vazia em uma paisagem habitável,
compreensível. Sem ela, o campo nevado não passa de uma superfície vazia e assustadora. Com ela,
o espaço ganha sentido, escala, profundidade. Mas há algo de profundamente humilde
nessa potência oculta da árvore coberta de neve.
À primeira vista, geralmente percebo
apenas uma fração de sua importância. Vejo sua silhueta altiva. Não compreendo tudo o
que ele abriga: os habitats que gera, os processos que regula, a memória que carrega, a influência
que exerce. A árvore guarda seus segredos, prossegue em sua obra discreta. E é precisamente
nessa discrição, nesse poder que nunca se exibe, que reside sua verdadeira grandeza,
a da eminência parda da paisagem.
















